A inauguração da Exposição
do Centenário da Independência, na Esplanada do Castelo, em 7 de setembro de
1922, foi marcada pela primeira transmissão de rádio no Brasil. O público ouviu
o pronunciamento do então Presidente da República, Epitácio Pessoa, e a ópera
‘O Guarani’, transmitidos diretamente do Teatro Municipal. Contudo, somente no
ano de 1923 foi inaugurada a primeira estação de rádio
brasileira, a Rádio Sociedade, com uma programação essencialmente cultural e
educativa.
De acordo com Calabre
(2002), os primeiros anos do rádio em nosso país foram marcados pelo surgimento
e desaparecimento de inúmeras emissoras, o que dificultou a passagem da fase
amadora para a fase comercial. Escassez de aparelhos receptores, falta de
verbas, impasses jurídicos com a veiculação de reclames e dificuldades em
conseguir patrocinadores predominaram nesse período. Além dos problemas
técnicos, o desenvolvimento do setor foi travado pelas instabilidades
políticas. Apesar dos problemas, o campo crescia progressivamente. Em 1929, já
se somavam no Estado de São Paulo 60 mil aparelhos.
Na década de seguinte, com
a “Revolução de 30”,
o presidente Getulio Vargas criou uma estreita relação com a radiofonia, utilizando-a
para difundir seu projeto de integração nacional bem como para divulgar a
imagem do Brasil no exterior. Nesse período, surgiu o programa ‘A Hora do
Brasil’, criado por um amigo próximo de Vargas, de cunho político e
nacionalizante, a fim de levar a propaganda do governo aos mais diversos
Estados e regiões do país, sobretudo à zona rural, sendo veiculado até os dias
atuais com o nome ‘A voz do Brasil’.
Concomitante e
acompanhando a dinâmica da economia de mercado, o rádio assumia caráter
comercial, estimulando a indústria de discos, venda de aparelhos receptores a
abrindo espaço para a publicidade. Para Tinhorão (1981), nesse período,
surgiram os anúncios cantados, ou seja, o uso de frases musicadas que lembravam
os famosos pregões de rua nos quais os vendedores ofereciam, aos gritos, suas
mercadorias. Poucos anos depois, esses anúncios passaram a ser nomeados como jingles, evidenciando as influências
norte-americanas e a luta dos mercados internacionais pela conquista de um
emergente mercado brasileiro dirigido para o consumismo. A novidade dos jingles agradou a sociedade a ponto de
os ouvintes incorporarem ao seu vocabulário as frases marcantes das mensagens
publicitárias, cantarem e assobiarem as melodias pelas ruas ou enquanto
trabalhavam. Surge, então, uma relação entre canções publicitárias e música
popular, com a produção e canções a partir de melodias e temas apresentados em jingles famosos. Em um primeiro momento,
as canções produzidas eram essencialmente marchinhas carnavalescas. Já a partir
da década de 1950, novos ritmos musicais despertaram o interesse da sociedade:
Ora, como os jovens filhos da classe média
emergente pretendiam ser modernos, e ligavam essa idéia de modernidade a todas
as novidades da indústria de consumo, a forma de interessá-los nos produtos
indicadores de atualização e status (refrigerantes, cigarros de luxo, roupas da
moda, chicletes, motocicletas, carros, artigos de esporte, de beleza, etc.) não
poderia ser mais as velhas marchinhas de carnaval, mas o ritmo da bossa nova, o
rock e outros modelos internacionais da música consumida pelas novas gerações.
(TINHORÃO: 1981).
Segundo Dângelo (2000), no
município de Uberlândia todo esse processo de inserção da cultura radiofônica
se deu com algumas particularidades. Podemos considerar que a cultura letrada e
requintada se contrastou com uma pujante cultura oral, veiculada pelas ondas
radiofônicas, as quais, configurando-se como símbolo do progresso e da
modernidade, incorporavam hábitos e costumes culturais e lingüísticos do
interior de Minas Gerais, onde predominava a linguagem ‘caipira’[1].
A promessa de progresso idealizado pelas elites locais, associada à urbanização
e ao crescimento do comércio local, teve na fundação da Rádio Difusora, em 1939,
uma de suas primeiras e mais importantes realizações. Enfim, o rádio conquistou
uma população em sua maioria analfabeta, unindo os interesses da criação de
novas formas de consumo com a oralidade e a cultura local. Além disso, o surgimento
de vários artistas locais, entre os quais Pena Branca e Xavantinho, Glorinha
Terra, Ivan de Almeida, Elza Bernardes, Addy Moura, na indústria radiofônica, ativou
e acentuou a empatia dos ouvintes com a nova mídia. Identidades urbanas,
enraizadas na cultura popular rural, construíam-se em meio às disputas pelo
controle da radiofonia enquanto veiculadora de costumes civilizados.
Podemos
entender essa enorme complexidade entre publicidade, radiofonia e oralidades
interioranas a partir dos próprios jingles.
O Acervo Discográfico Geraldo Mota Baptista, da Rádio Difusora detém cerca de
300 anúncios cantados e falados, gravados em discos de 78 e 33 rpm, permitindo
assim a análise e compreensão de como o rádio conseguiu conquistar a população
uberlandense e se tornar a melhor companhia de donas de casa e homens do campo
e ser um objeto indispensável nos fins de tarde em família.
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